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Dança pluvial

Logo que tranquei portão de casa, gotas finas começaram a cair do céu, mas eu decidi continuar. Um rosto gentil e desconhecido da vizinhança ofereceu um breve abrigo sob o teto de sua garagem, mas eu, inexplicavelmente, não quis me esconder. Daquela vez, não desejei fugir daquele presente. Recusei com um sorriso e prossegui, sem nem pensar em voltar e pegar um guarda-chuva.


Rapidamente, a intensidade dos pingos aumentou, mas não o ritmo do meu passo. Pela primeira vez em tempos, me alegrei com um incidente. Consegui enxergar aquela situação como um imprevisto bonito, como uma chance de sentir. Não podia deixá-la escapar, então a abracei como nunca havia feito e como sempre deveria fazer.


Minha roupa ia encharcando enquanto eu caminhava, em espanto. A água que tocava gentilmente minha pele era como um abraço que eu esperava há muito tempo, vindo de alguém especial, alguém de quem eu sentia falta e nem sabia. O cheiro de terra molhada me transportava, aos poucos, para um lugar familiar e nostálgico. Um lugar escondido aos olhos desatentos. As lentes dos meus óculos acumulavam as doces lágrimas das nuvens, mas não as minhas. E assim, envolvida nessas sensações, eu compreendi a profundidade daquele evento singelo. Aquela chuva era mais do só que uma breve tempestade de verão.


Foi quando entendi como eu era sortuda por estar viva ali, bem naquele momento! Como era bom estar podendo saborear aquela vivência que, em qualquer outro, dia me faria chorar, duvidar, estremecer. Normalmente, ficaria frustrada e questionaria meus propósitos quando a chuva resolveu cair logo que eu saí de casa. Mas ali, ela me curava. E curava porque, de certa forma, aquela experiência acessava um local íntimo e profundo, um lugar que se mantinha bem guardado dentro de mim.


O toque da chuva conversava com minha "eu" criança. Uma menina que sempre adorou a água, a textura da terra invadindo o espaço dos sapatos, o corpo arrepiando com a queda de temperatura. Somente ela deixaria aquela pureza tomar conta do meu coração. E naquela hora, ainda bem, eu a permiti renascer dentro de mim.


Fiquei naquela chuva, arrebatada, por um tempo que não sei contar ou numerar. Sei que foi pelo tempo necessário, sem nenhuma voz me atrapalhando com suas obviedades adultas. Pegar um resfriado, molhar a blusa, estragar o cabelo... naquela hora, nada disso realmente importava. Nada mais importava, somente eu, aquelas sensações, e a minha companhia solitária naquela dança pluvial. Me permiti viver dentro daquele curto momento enquanto ele durou. E quando terminou, guardei-o como um relicário nas minhas entrelinhas. E, bem, aqui está ele.

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1 Comment


Aah, que lindo! As vezes é bom deixar o nosso 'eu' criança aparecer. 🥹

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