top of page

Datilografar-se

Otávio sentou-se na cadeira pela manhã, com uma xícara de café fervendo no canto da mesa de madeira. Nela tinha também papéis soltos em branco, as suas mãos pálidas, enrugadas, de veias trêmulas, e uma máquina de escrever. 

Ele havia feito um curso de datilografia há um tempo muito distante, e naquele momento, já não se lembrava de mais nada. Porque apesar de sempre sonhar em registrar as histórias e ideias que sussurravam na sua mente, nunca as escrevia de fato. Deixava-as como frutas para apodrecer. Nunca se arriscou a encarar o aparelho e tocá-lo. Jamais se permitiu sentir cada uma de suas teclas e ouvir o barulho de ferro, lá dentro, manchando o papel com as formas que construíam as letras, as palavras, as frases, os textos. Era intimidador. 

A máquina, apesar de comprada com um dinheiro contado e suado, permaneceu intocada por décadas, envolvida em uma capa protetora. Mas nunca esquecida, ainda que ele, teimoso, não quisesse se lembrar. Tentou invisibilizá-la por anos, tirando-a do seu campo de visão e escondendo-a dentro do escuro dos armários. Tentou calar a voz que o perturbava, dormindo ou acordado, mas as tentativas eram vãs. A máquina sempre estivera lá ocupando uma parte de espaço-tempo, pesando sua consciência e desafiando sua competência, ocupando alguma parte oculta da sua mente. Ela o assombrava dia após dia.

Considerava-se um homem incapaz de escrever palavras que soassem tão boas quanto as que lia nos livros. Enxergava os autores quase como deuses, seres superiores. Não era ingênuo ao ponto de verdadeiramente acreditar nisso, no entanto, acreditava que quando essas pessoas se sentavam para escrever ou quando encontravam-se com a inspiração, era como se se teletransportassem para outra dimensão, e de seus dedos saía um trabalho que nenhum mero homem seria capaz de realizar, a menos que fosse divinizado.

A inspiração, para ele, era divina. E se apossava de algumas pessoas. Pessoas escolhidas a dedo para passar por essa experiência que, ele tinha certeza, se assemelhava a uma espécie de sonho lúcido, uma encarnação... uma possessão. E quem poderia explicar como? Ninguém. Ele não poderia provar essa ideia. A menos que ele pudesse conversar com algum autor que a tivesse vivenciado. Os grandes escritores que havia lido, é claro, deveriam ter passado por isso. Mas como faria isso? Encontrar-se com eles, falar com eles. Os que ele costumava ler estavam mortos. E ele não acreditava em qualquer uma dessas maneiras ridículas de se entrar em contato com espíritos, porque tudo o que não fosse um golpe, seria uma ilusão criada pela própria mente, pelo próprio querer. Aquela história de que, de tanto querer ver ou sentir algo, a mente acaba projetando e criando imagens falsas, sentimentos falsos. Talvez houvesse lido algo sobre esse fenômeno, talvez ouvido em algum lugar, e talvez fosse cientificamente provado, mas não sabia afirmar. Nesses casos, nem ao menos nós mesmos passamos a ser pessoas confiáveis, seria preciso duvidar de si mesmo. Há muito tempo ele já não sabia mais dizer se as suas fontes mentais eram confiáveis. O esquecimento, com todo o seu egoísmo, já começava a se apossar das suas lembranças, tomando-as dele. Precisava descobrir alguma outra maneira de disseminar essa ideia.

Porque durante um bom tempo que não saberia dizer quanto, sua existência foi dedicada em tentar encontrar algum jeito de saber se esse evento de divinação realmente acontecia e como ocorria. Se havia um porquê, um com quem. Na verdade, ele tinha certeza, claro, só gostaria de confirmar, deixar tudo registrado. Era óbvio que havia uma pré-seleção feita por um sei-lá-quem, ou então qualquer pessoa seria capaz de ser um escritor. E ele sabia que não era bem assim que funcionava, tinha a mais absoluta certeza. 

Otávio queria mais do que uma simples prova, ele queria um fato irrefutável, um acontecimento inquestionável para a sua justificativa de que escritores são aqueles que nascem escritores, e não seres humanos normais. Eles têm a capacidade de fazer ocorrer eventos fantásticos que os permitem incorporar vida nas palavras, fazer as letras dançarem em mentes alheias e criar universos, pessoas e situações tão únicas e singelas, tão reais... reais demais para serem verdade. Mas ele nunca encontrava sustentação para os seus pressupostos. Será que algum dia conseguiria explicar?

  Devaneando frente àquela mesa, o café já havia ficado frio sem que ao menos percebesse. O clima estava gelado, o que favorecia a velocidade com que o calor se dissipava pela atmosfera, e em poucos segundos a aura fumegante se esvaía da xícara e o café se tornava somente um líquido escuro sem graça. Em dias como este, tons de roxo ou azul apareciam nas suas unhas, uma cor que não sabia muito bem distinguir, mas que se assemelhava à cor das veias saltadas de suas mãos, e por mais que usasse o seu suéter de lã e o sol brilhasse levemente lá fora, elas pareciam nunca esquentar. 

Naquele dia, estava sozinho em casa, como de costume. A aposentadoria o fazia sentir, às vezes, como um peso no mundo. Sentia-se instigado a acreditar que já cumprira o seu propósito neste planeta, e o que restava era a necessidade de descansar. Sentar-se em uma poltrona na sala de estar com um cobertor xadrez nas pernas e realizar atos simples. Ler o jornal, assistir às notícias na televisão, atender a ligações de agências bancárias, ir ao mercado para reabastecer a despensa, vestir meias altas e calças de alfaiataria curtas com sapatos de couro desgastados sem engraxamento, usar boinas e suspensórios e relógios de pulso sempre largos demais, limpar os óculos com a ponta da camisa listrada de botão, roubar acerolas da árvore da vizinha que ultrapassava um pouco o seu muro, esperar pela morte. Aguardar pelo dia que ela chegasse. E não tentar ser um escritor, pelo amor de Deus! Começar algo novo sendo já tão velho era algo que sua mente não conseguia imaginar.

Otávio costumava pensar que poderia deixar a morte se adentrar aos poucos pelas suas janelas desgastadas, principalmente aquela da cozinha que havia emperrado há anos e nunca se preocupara em arrumá-la, sempre mantendo um vão aberto de possibilidades. Era por ali mesmo que a morte adentraria, pouco a pouco. Por conta dos cômodos e dos móveis velhos, saberia identificar o cheiro de coisas que já estiveram no mundo por tempo demais. Sua casa era uma dessas coisas, e ele também era. Sabia disso porque sentia-se desmanchar com o tempo, junto com as cores das suas fotos reveladas, com as páginas amareladas dos seus livros mais antigos. A morte desgastaria tudo gradualmente, começando pelas extremidades até chegar ao centro, um processo lento e doloroso. E ele esperaria.

Mas, naquele instante, ao encarar intensamente sua máquina de escrever e ser invadido pela sensação de não ter mais tempo, pensou que o único modo de descobrir e provar que aquele tipo de evento divino ocorria apenas com os que fossem premeditados para isso seria, justamente, escrevendo. Concretizando esse pensamento no mundo. Materializando. Foi dessa forma que os seus mais amados autores conseguiram sobreviver, fazendo com que suas ideias perpetuassem através do tempo no papel. Ele precisaria ser ativo em sua teoria se desejava que ela fosse confirmada, transformando ideias em prática. 

Era isso! Se ele começasse a escrever seu postulado, o pouco tempo que o restava se faria suficiente, e seria capaz de provar que o evento não lhe ocorreria porque não fora um dos escolhidos, e assim sua fala teria boa referência — a própria. Poderia até mesmo tentar escrever um artigo sobre isso, já que escritos deste tipo não necessitavam de inspiração divina, e sim de conhecimento puro, o que ele adquiriria ao longo da experimentação. Era o plano perfeito, mas precisava ser posto em prática logo. Não havia um segundo a se perder.

Decidiu passar mais um pouco de café, para que pudesse beber ainda quente, e permanecer acordado. Sentou-se novamente na cadeira e olhou com firmeza para a máquina de escrever. Ela estava realmente intocável. Apesar de ter sido comprada há anos, parecia ter acabado de sair da loja, acabado de ser aberta, apreciada pela primeiríssima vez. Ela reluzia, brilhava com a limpeza minuciosa e cuidadosamente feita. Levantou ambas as mãos sob os seus olhos e as encarou. Depois, girou para observar as palmas e apertou-as uma contra a outra, só para ter certeza de que aquelas mãos eram suas e que era o seu próprio cérebro que estava enviando as sinapses para as articulações do seu próprio corpo, e que seus dedos se movimentariam porque ele mesmo pensaria em realizar este ato, portanto o concretizaria. Quando tinha a certeza de que estava no controle de tudo, datilografou:


NOTA INICIAL:


Não sabia quais palavras seriam dignas de serem carimbadas no papel pela primeira vez, então, talvez, uma explicação prévia atenuasse aquela rígida seriedade. Estava nervoso ao ver as nuances de seu primeiro texto. Um artigo! Por mais que tentasse manter sua mente no campo lógico da razão, pois estaria escrevendo por um propósito científico e digno de provar um ponto de vista nunca provado por mais ninguém, ainda assim era afligido pela pequena porcentagem de possibilidade com que a divinação o ocorresse. Como reagiria? O que sentiria, caso tivesse a sortuda infelicidade de passar por esta experiência? Por mais animadora que a ideia soasse, ele não deveria se distrair, apenas escrever para registrar. Era o seu maior propósito e não poderia perdê-lo de vista, logo agora que o havia encontrado. Então, continuou a datilografar:


NOTA INICIAL: Esta é a primeira frase, essas são as primeiras letras que, em conjunto, formam as primeiras palavras que estou datilografando neste papel em branco. É necessário deixar muito claro, neste registro, que o escrito em questão está sendo criado com finalidades unicamente investigativas e com o nobre intuito de afirmar e reforçar uma teoria inédita intitulada de divinação. Neste sentido, nada do que está aqui deve ser entendido ou interpretado de modo subjetivo, pois não há evidência alguma de metáforas ou quaisquer figuras de linguagem que foram utilizadas para alterar o real sentido destas palavras. Tudo o que estiver escrito aqui significa o que precisa significar, e nada mais. Não existe coisa alguma que esteja além do que as palavras possam trazer para o campo das ideias. Seu significado é justamente aquilo que o seu significante quer significar.


Otávio não podia negar que ainda estava relutante, no entanto, o primeiro passo havia sido dado. Encarou aquelas palavras que haviam tomado forma, transmutadas em um parágrafo de verdade, e, por um singelo momento, sentiu orgulho de si por seu trabalho. Mas não tinha a mínima ideia de como deveria começar a escrever um texto formal. Não havia se graduado em alguma universidade e jamais antes estivera em contato com o ato de redigir trabalhos acadêmicos ou trabalhos de conclusão de curso, quanto menos um artigo científico ou uma tese para defesa. E ele não tinha mais tempo para aprender como se fazia. 

Precisava dar continuidade ao seu trabalho, pois quanto mais tique-taques ouvia soando no relógio, menos tempo sentia ter para que finalmente pudesse ter a chance de possuir voz sobre o assunto. Sentia a morte se aproximando daquela janela estragada, mas agora desejava que ela demorasse para entrar. Precisava escrever, nem que fosse para seguir seus instintos, usar o famoso achismo – “acho que é assim que se faz, então assim farei”. Se desprendeu do perfeccionismo e datilografou, em uma nova folha em branco:


Boas-vindas. Seja lá quem estiver lendo este texto, sinto-me grato por dedicar um período de seu tempo para aproximar-se de minhas ideias.


Mas riscou esta frase com uma caneta esferográfica preta, porque sentiu que precisava ir direto ao ponto, ser mais profissional. Não havia necessidade de ser simpático ou convidativo quando não sabia se, algum dia, toda aquela tralha seria realmente lida, compreendida, refletida, repensada. No entanto, ainda assim não poderia ser totalmente impessoal, pois dependeria de suas experiências para que a teoria fosse posta em prática, já que ele mesmo era o próprio objeto de estudo e análise. Era sua própria cobaia, seu próprio rato de laboratório.


B̶o̶a̶s̶-̶v̶i̶n̶d̶a̶s̶.̶ ̶S̶e̶j̶a̶ ̶l̶á̶ ̶q̶u̶e̶m̶ ̶e̶s̶t̶i̶v̶e̶r̶ ̶l̶e̶n̶d̶o̶ ̶e̶s̶t̶e̶ ̶t̶e̶x̶t̶o̶,̶ ̶s̶i̶n̶t̶o̶-̶m̶e̶ ̶g̶r̶a̶t̶o̶ ̶p̶o̶r̶ ̶d̶e̶d̶i̶c̶a̶r̶ ̶u̶m̶ ̶p̶e̶r̶í̶o̶d̶o̶ ̶d̶e̶ ̶s̶e̶u̶ ̶t̶e̶m̶p̶o̶ ̶p̶a̶r̶a̶ ̶a̶p̶r̶o̶x̶i̶m̶a̶r̶-̶s̶e̶ ̶d̶e̶ ̶m̶i̶n̶h̶a̶s̶ ̶i̶d̶e̶i̶a̶s̶.

O seguinte texto tem a finalidade de demonstrar, por meio de investigações e experimentações realizadas em determinado período, por mim e comigo mesmo, de que aqueles seres humanos aos quais nasceram escritores são diferentes de seres humanos comuns. 

A teoria se validará a partir de provas reais que estarão explícitas neste arquivo. Será discorrido que apenas o tipo de pessoa intitulada “escritor” é capaz de passar por uma experiência influenciada pelo ato divino que, na sociedade, é comumente conhecida como inspiração. Aqui, o conceito aparecerá com o nome de divinação.

Desse modo, é a partir da explicação de como o fenômeno ocorre que, por intermédio deste escrito, me responsabilizarei em provar que, com pessoas ordinárias como eu, por maiores que sejam as tentativas, nunca de fato a inspiração divina as encontrará. Os seguintes parágrafos aqui datilografados serão feitos com a única e simples finalidade de afirmar a teoria, como explicitado anteriormente, portanto devem ser considerados meramente ilustrativos.


 

Minha vida foi moldada com livros. Ou para melhor definir, por livros. Apesar de haver muitos outros elementos, os livros sempre agiram como uma base, como escadas que me proporcionavam subida, vontade de viver e realizar quaisquer outros objetivos. Sem eles, não haveria alicerce para que as outras partes do meu ser pudessem se manter em pé até hoje. 

A vida, foi, muitas vezes, difícil demais. Cinza. Os livros, desde sempre, foram os responsáveis por trazer cor ao viver, e apesar de isso parecer uma forma de escapismo à realidade, jamais me fizeram mal. Ler é como um incentivo que qualquer ser humano precisa ter, vez ou outra. Aquele empurrão que muitas vezes faz falta, quando se está sozinho. 

Imaginar as realidades, os mundos e universos que residiam dentro de um amontoado de páginas, que criavam vida por meio de palavras bem-posicionadas e estrategicamente moldadas, era o que fazia meus olhos brilharem nas noites mais escuras. Aquelas em que se precisava manter o fogo da lamparina aceso por horas a fio porque não era possível parar a leitura, mas que gerava uma dor de cabeça forte no dia seguinte por forçar demais a vista. De qualquer maneira, quando penso em tudo que li e tudo o que ainda leio, olho para trás e não me arrependo. Os livros me acolheram como ninguém poderia, e por isso sou quem sou hoje.

Mas existe um momento singelo na vida de um leitor em que as suas vontades são influenciadas pelos seus atos. Acontece com todos aqueles que leem e apreciam tal ato, em algum momento. De tanto ler, de tanto mergulhar em mundos distintos e criativos, de tanto encontrar-se com os mais característicos personagens que o marcam para sempre, o leitor passa a alimentar uma vontade de escrever também. 

Ele sente que gostaria de compartilhar com o mundo as pessoas de suas próprias histórias, suas aventuras, as sensações que permeiam o seu ser, os ambientes em que se acomodam, quais seus maiores medos e mais doces desejos. Ele anseia internamente que seus sentimentos sejam expurgados através de palavras no papel, ele vocifera porque deseja ser ouvido, porque quer ser lido! E quando isso acontece, meu caro, ah... quando isso acontece, há apenas duas opções, porém, nunca se tem certeza de qual o contemplará: a de conseguir escrever ou não. Porém, é mais complexo do que parece, ao descrever aqui, desta maneira. Para que esta ideia seja de maior entendimento, explicarei de outra forma, com mais detalhes e especificidades. 

É certo que nem todos os seres humanos deste planeta serão privilegiados pela experiência de leitura, para início de conversa. Quando não há experiências literárias, neste sentido, não pode haver possibilidade de ocorrer o processo descrito acima, o de em algum momento surgir uma necessidade tremenda de escrever. Pode haver exceções, decerto, afinal os seres humanos são surpreendentes e dotados de estranheza em que nem ao menos outro ser humano poderia ser capaz de explicar, porém considero-as muito raras, nestes casos, a tratar dos atos de leitura e escrita como habilidade. 

Sem a habilidade de leitura, não pode haver habilidade de escrita, por esta linha de raciocínio, e dificilmente sem o gosto pela leitura o gosto pela escrita haveria de florescer. Uma ação depende da outra. Explicado isto, entende-se que a experiência primordial — a divinação – que busco descrever neste texto não ocorre com qualquer pessoa. Dessa maneira, fica claro que a porcentagem é pequena, minúscula, e diminui ao passo que se entende como funciona.

Pensemos, agora, na parcela de pessoas que leem, que têm contato com literatura, seja ela de qualquer tipo, de qualquer contexto, de qualquer nível. O simples ato de ler e interpretar aquelas palavras de um modo singular, de torná-las parte de si durante o momento de leitura. A parcela de pessoas que está altamente propensa a passar pelo sentimento de escrever precisa passar pelo processo de ler. 

Qualquer um, a depender de circunstâncias externas como oportunidade, contexto sociocultural e familiar, condições mentais, incentivo... qualquer que seja esta circunstância, pode chegar ao ponto de se tornar o que se chama de “leitor”. Esta é uma habilidade que não considero simples, já que cada ser abarca suas dificuldades particulares, mas possível de ser alcançada, principalmente para os que não enfrentam barreiras para a sobrevivência ou para ações – que deveriam ser – básicas para qualquer ser humano. Não busco entrar em questões mais profundas sobre direitos humanos ou quaisquer discussões científico-sociais que não sou capaz de fortalecer visto a falta de conhecimentos e referências para tal. Seres humanos podem adquirir a habilidade de escrever, e ponto final, é o que pretendo afirmar. 

Pode-se pensar, portanto, que a habilidade de escrita é tão alcançável quanto a habilidade de leitura, mas eu digo que não. A capacidade de redigir palavras materialmente, como o que faço aqui, agora, não abarca toda a profundidade que existe na palavra escrever, no ato de escrever. Escrever é relativamente fácil, se pensarmos como habilidade, a qual necessita-se de alfabetização para ser capaz de amontoar um arranjo de ideias que existem dentro da mente e transmutá-lo em texto. A partir da existência deste conjunto de palavras em orações e de orações em parágrafos, de elementos coesivos e de coerência, tem-se um texto entendível, legível. É um fato. 

Mas há outro fato ao qual esta ideia central se permeia, que é o qual busco trazer por intermédio deste. Não são todos aqueles que, dotados para escrever um texto, por mais inteligente ou rebuscado que ele soe, que são capazes de escrever um bom texto.

Uma outra poderosa e polêmica questão se forma aqui, mas garanto os devidos argumentos para explicar: o conceito de “bom”. Novamente, não cabe a mim ou a este texto discutir questões filosóficas, psicológicas, morais, ou, seja lá em qual âmbito esteja centrado a ideia de bom. O argumento aqui registrado se dará a respeito de fatos, do que realmente acontece. Porque todos sabemos da verdade, em algum lugar fundo da alma, mas talvez não queiramos admitir. 

A verdade é que nem todos nasceram para se tornar escritores, e essa talvez seja uma afirmação difícil de engolir, como aquelas pílulas grandes demais, secas e rígidas. Mas são necessárias, concorda? Por mais que seja incômodo tomar as pílulas, elas te trarão de volta à normalidade. Elas evitarão que fique preso em febres, calafrios e delírios de uma ideia que não condiz com a realidade, por mais verdadeira que ela pareça. Vale um incômodo momentâneo a uma dor mortal, quando o pior vier à tona. Com um pouco de água o processo pode ficar mais fácil. Esta água será o meu relato, meu caro leitor. Eu entendo o quanto pode doer engolir esta pílula porque constantemente preciso ingeri-la, mas sei que estou bem melhor assim. 

Nem todo leitor pode se tornar um escritor, essa é a verdade. Mas por quê? Eu sempre me questionei, por anos, mas finalmente descobri o motivo e, neste caso, necessito registrá-lo formalmente para que, se algum dia for possível, os que passarem pela mesma angústia entendam que não estão sozinhos, e que não há nada errado em ser meramente humano. O que acontece é que não há espaço para que todos os que escrevem possam ser reconhecidos, então o Universo, o Destino, que seja... qualquer nome que se dê para Isto, necessita escolher os que serão abençoados com esta dádiva. É o que chamo de divinação. 

Em termos sucintos, a divinação pode ser definida como um momento, uma experiência. Ela pode ocorrer em segundos, e na maioria das vezes não dura mais do que o momento de escrita, afinal não haveria outros motivos para existir. Os escolhidos para tal são aqueles que se tornam nomes significantes que conhecemos por aí, que estão estampados nas capas dos livros e procurados por olhos atentos nas lombadas da prateleira das bibliotecas e livrarias. Os nomes que serão citados em outros escritos e que ficarão eternamente vivos nas memórias dos que os leram, porque são bons. Entende? Isso que é ser bom, é sobreviver. É permanecer pulsante dentro de folhas de papel rabiscadas por anos. Não há contestação para este fato, é algo que acontece na humanidade, aceitemos ou não. 

De volta aos particulares, pode-se concluir que a divinação ocorre em momentos aleatórios, quando aquele menos espera. Aos que não foram escolhidos, como eu ou como você que lê este texto, por mais que escrevam, por mais que discorram por milhares de páginas, todas as tentativas serão vãs. Inúteis. Eu não saberia dizer o que os escolhidos “escritores” sentem para que continuem realizando o ato, o de escrever, já que não sou um deles. Talvez eles simplesmente saibam que a divinação os ocorrerá em algum momento, porque aquilo está definido, está escrito em algum lugar do futuro, entre as estrelas e astros, e ele sabe. Assim como eu e outros meros seres humanos sabemos que tal evento nunca nos ocorrerá, exatamente da mesma maneira, pelos mesmos motivos. Porque é assim, sabemos que é. E não há parágrafo de conclusão que dê conta de finalizar essa ideia. Ela já machuca demais em seu desenvolvimento.


Ao pressionar a tecla do último ponto final e soltar um leve suspiro, por mais que já estivesse com os olhos abertos, Otávio piscou e enxergou como tudo ao seu redor pairava, depois deste momento. O ambiente encontrava-se deformado, como se influenciado por uma ótica fantasiosa, como se usasse lentes de contato mágicas. A luz do sol, que já caía suavemente entre as casas da vizinhança, trazia um sentimento plácido para todo o cômodo ao mesmo tempo em que tudo parecia errado. 

Haveria de ser ele mesmo, ali, rodeado de folhas soltas escritas com suas próprias mãos? De onde vinha aquela força que sentia surgir dentro de si? De onde vinham todas aquelas palavras? De onde vinham aqueles papéis tão cheios? Sentiu-se distante de tudo, dos móveis, da máquina de escrever, da xícara de café vazia, das suas mãos enrugadas, até mesmo da morte. Mas sentiu-se tão próximo de si mesmo como nunca sentira. Era como se pudesse tudo e nada, simultaneamente. Datilografar-se havia sido divino. E a única certeza que ele tinha, ao final de tudo, era a de que não devia haver outra explicação. 

Posts recentes

Ver tudo

Broto

Comments


bottom of page