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Temporada de mudanças

Mês
Dezembro junta todos os dezembros que se possa lembrar e junta também brisas e fragmentos de dezembros apagados. Tem a densidade de um pão de ló que o calor fermentou e deixou alucinógeno. Então é desconcertante que seja ao mesmo tempo o mais leve e frágil dos meses Cada dezembro novo retoma o anterior e o anterior e tudo o que fomos desde o primeiro dezembro.
(Laura Wittner)

Enquanto navegava pelo Instagram, me deparei com um poema que me deixou atônita. A autora, descobri, é contemporânea. Laura Wittner é poeta, tradutora, crítica e professora argentina. Eu acho incrível como o poder de identificação fica ainda mais forte quando lemos alguém que se aproxima tanto da gente. E esse poema me tomou por inteira!


Decidi trazer esse poema para cá porque queria compartilhar uma reflexão com você, leitor. Algo que venho pensando nessas últimas semanas do ano, essas tão próximas do fim. Quem me acompanhou por aqui durante o ano de 2023 percebeu que eu sempre falo sobre ciclos. Ciclos da natureza, ciclos do calendário, ciclos dos meses e das estações anos, mas principalmente aqueles ciclos únicos e pessoais que existem em nossas vidas. Aqueles que se constroem dentro de e por nós, aos poucos. Eles nunca escapam do meu discurso, por mais que eu tente.


Particularmente, sou uma pessoa que costuma inventar metas, se planejar, esperar ansiosamente por novos ciclos, novos inícios. Novas possibilidades de recomeçar. O que eu mais acho bonito nisso é que os ciclos podem variar muito em forma e tamanho. Um ciclo pode durar um ano, um semestre, um mês, uma semana... um dia!


E me sinto tão bem quando consigo tomar um dia como um ciclo, ainda que curto. Porque isso me entrega a possibilidade de poder começar tudo de novo no outro dia. É revigorante, para mim, acordar e pensar que a vida é uma página em branco, que eu posso tomar as escolhas que bem quiser e criar um caminho para minha própria história. O meu caminho. A minha história.


Mas o fim de ano me toca de forma diferente, mais intensa. O encerramento desse ciclo parece ser bem mais marcante, porque normalmente nos pegamos pensando em tudo o que aconteceu durante longos 365 dias, nos hábitos queremos manter e em que aspectos desejamos mudar. Fazemos promessas, escrevemos listas, traçamos objetivos... Como canta The Smiths, "Good times for a change" ("Tempo bom para uma mudança", em tradução livre). É sempre assim!



Coincidentemente, venho ouvindo muito essa música. Pensando no que ela, com essa letra aparentemente simples, esconde em suas entrelinhas. Basicamente, o eu-lírico da música implora por uma nova chance de conseguir aquilo que tanto quer. É isso que ele diz durante quase dois minutos. Por favor, pelo menos uma vez na vida, me deixe conseguir o que eu quero! Só Deus sabe, essa seria a primeira vez...


É como se esse narrador melancólico olhasse para trás e sentisse que não conseguiu conquistar nada. Que perdeu tempo. Que se sente atrasado. E ele olha para o futuro já desesperançoso, pedindo por forças vindas de sabe-se lá onde. Porque nem sonhar ele consegue mais! Não vem sonhado há um bom tempo. Leitor, eu não sei você, mas eu também me senti assim inúmeras vezes ao longo desse ano. Desencantada de tudo, vazia de sonhos e esperança em um futuro melhor.


Só que esse poema da Laura Wittner me fez pensar muito. Quando ela diz que dezembro junta todos os dezembros, eu interpreto como se o fim de ano sempre trouxesse uma reflexão daquilo que fomos, de tudo aquilo que viemos sendo durante toda a nossa vida. "Cada dezembro novo/ retoma o anterior e o anterior/ e tudo o que fomos/ desde o primeiro dezembro."


E eu comecei a pensar nos meus dezembros, em todos eles. Penso na menina que fui e que ainda carrego aqui dentro de mim. Que sonhos e desejos ela tinha dentro de si? Quantas metas ela não conseguiu cumprir? Quanta mudança deve caber, agora, dentro de mim, para abarcar toda essa complexidade das minhas inúmeras versões?


Sabe... os objetivos que eu tinha com 5, 9, 13, 18 ou 21 anos já não são mais os mesmos. Algumas coisas se mantêm, é claro. Mas não posso afirmar que ainda sonho em ganhar aquela casa da Barbie de presente de Natal, que tenho como maior objetivo escolher uma universidade para estudar, ou que torço para que eu nunca chegue na casa dos vinte. Porque tudo isso já é passado. Continuo sonhando em escrever, em publicar um livro. Há sonhos que podem — e devem — ser continuados. Mas seria injusto da minha parte carregar para sempre a culpa dessas metas não-cumpridas que já nem mais posso chamar de minhas.


É preciso filtrar o que escolhemos desejar, ano após ano. Por isso eu acho tão importante tirar um tempo desses dezembros desconcertantes exclusivamente para se pensar — pensar-se. Refletir com as perguntas mais básicas. Quem eu sou? Quem eu quero ser? O que faz sentido pra mim? O que deixou de fazer?


Eu ainda não tenho todas as respostas para essas perguntas, leitor. Nem você ou qualquer outra pessoa deveria se sentir pressionado a ter, na verdade. O que eu quero transmitir aqui, hoje, é que não deveríamos ter medo de descartar ideias, muito menos de iniciar novas. Não deveríamos ficar guardando aquilo que não nos serve mais, sejam sapatos ou sonhos. E também não deveríamos ficar esperando sempre o momento certo para tudo. Às vezes — na maioria delas — o que a vida quer de nós é espontaneidade.


Então, vá. Comece e recomece. Não precisa ter medo. Não precisa ter pressa. Não precisa se prender. Não precisa esperar o ano que vem para colocar aquele projeto em prática. Não precisa se sentir culpado por abandonar um caderno no meio do ano ou mudar de ideia. Não somos completamente estáveis, mas isso é ser humano. E há tanta, tanta beleza naquilo que mora no imprevisível...


Esse é um recado meu para você, mas também, meu para mim. Que não a gente não deixe a rigidez falar mais tão alto. Que a gente se permita o gosto da mudança e das novas descobertas.


Eu desejo uma boa temporada de festas de fim de ano para você, leitor. Que esse novo ciclo se inicie de forma leve e agradável, cheio de possibilidades. E espero que você tenha se encontrado nesse emaranhado de ideias, palavras e pedaços.


Até a próxima!

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